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Dr. Daniel Becker /Saúde do bebê

Alimentos orgânicos

Chegou a hora de introduzir alimentos na rotina de seu neném? Entenda por que vale a pena procurar pelos orgânicos, livres de agrotóxicos.

  • 30/08/2013
  • Dr. Daniel Becker
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As escolhas que fazemos no dia a dia – e em especial os hábitos que ajudamos nossos filhos a criar – podem se refletir em enormes ganhos para sua saúde, que vão durar por toda a vida. Numa abordagem “integral”, pensar nossos filhos e nossas escolhas é também refletir sobre nosso estilo de vida e sobre a sociedade e a cultura em que vivemos. Nossos padrões de consumo, os limites que damos a nossos filhos, nossos princípios e valores – cada um destes fatores terá influência na saúde de nossas crianças, hoje – e em especial no futuro. Mais do que isso, muitas destas escolhas serão determinantes para o meio ambiente e para a sociedade onde eles viverão.Neste post quero discutir temas que se cruzaram de forma interessante numa série de reportagens publicadas: alimentação, meio ambiente e mídia.Estas matérias são exemplares para entendermos como somos influenciados (e muitas vezes manipulados) cotidianamente pela imprensa e pelos interesses do mercado de consumo. Então: o Globo e vários outros jornais, incluindo o NY Times, publicaram matérias sobre um estudo de Stanford, publicado em uma conhecida revista médica indicando que produtos orgânicos não são melhores que os cultivados com agrotóxicos.

Vejam as manchetes
– O Globo: Ausência de aditivos químicos não é garantia de alimentação saudável – esta manchete figurava no topo da pagina da seção Saúde.

– Revista Time: Vale a pena comprar orgânicos? Talvez não

– New York Times: Cientistas colocam em dúvida as vantagens de alimentos orgânicos. O curioso é que os estudos se referiam apenas ao valor nutritivo dos alimentos orgânicos versus os convencionais. O que foi demonstrado é que o teor de nutrientes (proteínas, vitaminas, etc) é o mesmo. Ora, que coisa. Uma batata com veneno tem tanta vitamina B quanto uma batata sem veneno.

Qual você escolhe? Todas as três reportagens enfatizavam as semelhanças entre os dois grupos, mas nenhuma mencionou que a presença do agrotóxico em si é um dano potencialmente muito grave à saúde. Outros jornais deram manchetes menos tendenciosas, como a Folha de São Paulo: “Alimentos orgânicos não são mais nutritivos”. Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Nosso modelo de desenvolvimento (monocultor e concentrador de terras) é baseado no agronegócio, que compra de enormes consórcios transnacionais (sempre com a onipresente gigante Monsanto) pacotes que incluem agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes em uso maciço, e assim multiplica seus lucros.

A política agrícola brasileira é mais preocupada com a saúde financeira de grandes proprietários – os ruralistas, super representados no Congresso – do que com a nossa saúde – ameaçada pelos venenos que consumimos, ou a da natureza, deteriorada pelos mesmos fatores e pela ambição burra e desmesurada (vide os horrores do novo código florestal). O Brasil é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Desde a década de 1970 o crédito rural é condicionado à compra obrigatória de agrotóxicos pelos agricultores. Acredite se quiser: só pode comprar sementes (da Monsanto) quem mostrar recibo de compra de venenos – da Monsanto ou associadas.

O uso dos agrotóxicos nas lavouras brasileiras aumenta a cada ano. Pior: dez variedades vendidas livremente aqui são proibidos em 45 países. O brasileiro ingeriu, em média, 3,7 quilos de agrotóxicos em 2009: ao menos 15% dos alimentos consumidos pelos brasileiros apresentam resíduos de veneno (legais e ilegais) em um nível claramente prejudicial à saúde.Os venenos persistem no ambiente e podem contaminar o solo e a água. Os danos ambientais são gravíssimos, e ainda mais os prejuízos à saúde dos trabalhadores no campo. Entre os diversos efeitos nocivos dos agrotóxicos estão problemas neurológicos, endócrinos, imunológicos, reprodutivos e é claro, o câncer (linfoma não-Hodgkin, câncer de mama e próstata). A ligação entre doença de Parkinson e agrotóxicos está bastante comprovada. Redução na fertilidade masculina, hiperatividade em crianças, fissura palatina e síndrome de Down podem estar também relacionados ao uso de agrotóxicos. Não percebemos de imediato o mal que causam estes venenos, mas eles estão lá, minando nossa saúde.

Voltando às reportagens: a quem interessa manchetes claramente tendenciosas, que enganam o leitor e deixam a impressão de que agrotóxicos são inofensivos? O próprio O Globo nos dá a resposta com uma declaração do vice-presidente da Associação Brasileira de Orgânicos: “existem vários estudos que tentam desqualificar nossos produtos, financiados por fabricantes de agrotóxicos, medicamentos…”.

As forças em torno da indústria de agrotóxicos, fertilizantes e sementes modificadas são poderosíssimas, e vão tentar nos manipular e enganar. É preciso atenção, pois em última instância, as escolhas que fazemos são nossa responsabilidade. E as melhores escolhas podem trazer benefícios não só para a saúde de nossos filhos, mas também para o planeta onde eles viverão.E só lembrando: os orgânicos estão cada vez mais acessíveis. Nas feirinhas orgânicas, já é possível encontrá-los às vezes mais baratos que os alimentos convencionais. E, dizem os adeptos, com um sabor muito melhor.

 

DR. DANIEL BECKER

Pediatra com 20 anos de experiência em consultório privado no Rio de Janeiro. Formado pela UFRJ, especialista em Homeopatia e mestre em Saúde Pública.